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Ar Livre!


Ar livre, que não respiro!
Ou são pela asfixia?!
Miséria de cobardia
Que não arromba a janela
Da sala onde a fantasia
Estiola e fica amarela!

………………………


Ar livre!
Que ninguém canta
Com a corda na garganta,
Tolhido da inspiração!
Ar livre, como se tem
Fora do ventre da mãe,
Desligado do cordão!

Ar livre, sem restrições!
Ou há pulmões,
Ou não há!
Fechem as outras riquezas,
Mas tenham fartas as mesas
Do ar que a vida nos dá!



Miguel Torga, Cântico do Homem


Ode ao Honorabilíssimo Sir William Temple




Essas astúcias que sustêm o Estado
passes de prestidigitação
Que chamamos profundos desígnios políticos
(Como no teatro, o néscio parolo,
Não se apercebendo das cordas,
Pasma ante uma auréola que voa)...

Mas suponhamos que em plena representação
A máquina, mal montada, se desconjunta,
Os cenários entreabrem-se e tudo deixam ver:
Logo o truque entra pelos olhos dentro!
Como é simples! Que grosseira trapaça
Vede pois o nó da polé!...
Que pobre máquina acciona
Os pensamentos dos monarcas e os planos
De que misérias depende a sua Sorte!...
Apavorados os campónios fogem,
Tremendo ante o Prodígio inaudito...
Ei-lo! Olhai!
Como todos se arrepiam e tremem!

Jonathan Swift,"Ode ao Honorabilíssimo Sir William Temple" (1689)

"Afastada a justiça,
o que são os reinos senão grandes bandos de ladrões?
E os bandos de ladrões o que são, senão pequenos reinos?" .

Santo Agostinho, A cidade de Deus, finais do séc. IV d.C.